Sei lá, Timmy, ser Deus é uma grande responsabilidade

Escrito por Sam Hughes, traduzido por Érico Bennemann Carvalho

Tim já tinha pego sua bolsa e seu sobretudo e estava com as chaves na mão para sair, quando Diane o parou na porta.

"Acabei de conseguir fazer essa coisa funcionar. Você precisa ver."

"Preciso pegar o ônibus.”

"Você pode pegar o próximo.”

"Eles só passam a cada meia hora”, reclamou ele. “É bom que isso valha a pena.”

"Valerá e muito! Olhe para a tela grande, é mais fácil do que franzir os olhos para ver no meu monitor."

"Isso vai demorar?”

"Um mero instante. OK, computação quântica, não é?"

"Esse é o nome do jogo", ele respondeu. Eles – estamos nos referindo a Tim, Diane, seus oito colegas de trabalho, seus dois supervisores, quatro engenheiros químicos, seis engenheiros elétricos, o zelador, uma infinidade contável de seletores TEEO 9.9.1 de colapso do intervalo de taxa da frequência de onda quântica não elastificada seletivamente espumante de ultra-média densidade e um único e atormentado neutrino tau pego no meio de tudo isso – representavam a soma total das conquistas da raça humana no campo da computação quântica. Mais especificamente, eles tinham, anteriormente naquela semana, construído com sucesso um computador quântico. Colocando em prática princípios que um trio de matemáticos estatísticos incrivelmente inteligentes levou 10 anos para desenvolver, e que somente cerca de cinquenta e cinco outras pessoas no mundo todo conseguiam sequer compreender, eles tinham construído um dispositivo capaz de transmitir informações para, e processar as respostas do que podia, sem exageros, ser descrito como uma única partícula fundamental com poder de processamento infinito e capacidade infinita de armazenamento.

Ainda não havia passado tempo suficiente para que o mundo como eles o conheciam fosse totalmente, fundamentalmente e permanentemente alterado por essa notícia.

Mas ainda assim, era algo muito animador. Santo Zarquon, eles disseram um para o outro, um computador infinitamente potente? Era como mil Natais condensados em um só. O programa vai entrar em um loop eterno? Sem problemas: essa coisa poderia executar um ciclo infinito em menos de dez segundos. Teste de primalidade por força bruta para todos os números inteiros existentes? Fácil. Encontrar o último dígito de pi? É como tirar doce de criança. Problema da Parada? Re-sol-vi-do.

Eles ainda não o haviam anunciado. Eles estiveram programando. Obviamente eles não o haviam construído apenas para provar que podiam. Eles tinham planos. Em alguns casos eles até mesmo tinham código pronto e esperando para ser executado. Um desses programas era o da Diane. Era um simulador do universo. Ela começou com uma simulação do Big Bang e avançou a coisa no tempo por aproximadamente 13,6 bilhões de anos, até aproximadamente logo antes do dia de hoje, observando o universo se desenvolver a cada estágio – tomando breves notas, mas sabendo muito bem que haveria muito tempo para rodá-lo mais tarde, e basicamente só admirar o milagre da criação.

Então, na última sexta-feira, ela havia começado a programar novamente. E foi pura coincidência que logo agora há pouco, quando Tim estava prestes a ser a penúltima pessoa a cruzar a porta e ir para casa para o fim de semana, que o trabalho dela havia dado frutos. “Veja o que eu encontrei”, ela disse, apertando algumas teclas. Uma das primeiras coisas que ela havia programado era um software de janela, de onde eles podiam observar o universo simulado.

Tim olhou, e viu uma esfera branco-azulada na imensidão negra, iluminada de um lado por um forte brilho amarelo. “Você só pode estar brincando. Quanto tempo levou para você achá-la? No cosmos inteiro de que, dez-elevado-a-vinte-e-dois estrelas?”

"Literalmente tempo nenhum."

"Ah, mas é claro."

"Foi o tempo de programar uma rotina de pesquisa e pensar o que pesquisar."

"Isso definitivamente é a Terra?"

"Sim. Os continentes batem com os que tínhamos cerca de trezentos e cinquenta milhões de anos atrás. Eu posso avançar o relógio lentamente, alguns milhões de anos de cada vez, e parar quando começarmos a chegar perto do dia de hoje."

"Você consegue retroceder o tempo também?"

"Ah, não. Pergunte-me novamente na segunda."

"Então nesse caso é melhor não passarmos do dia de hoje acidentalmente. Está chegando perto. E quanto a essa janela de visão? Podemos mudá-la?"

"Podemos observar a simulação de qualquer ângulo que você quiser.”

"Precisamos de um lugar no qual sabemos que a civilização mais antiga do mundo irá nascer. Algum lugar fácil de localizar. Já existe um delta do Nilo?"

"...Sim. Compreendi."

Eles avançaram mil anos de cada vez até que a civilização egípcia começou a surgir. Diane moveu a janela de visão, tentando encontrar as pirâmides, mas sem sucesso – o sistema de controle que ela havia criado era desengonçado e precisava de refinamento, e havia muito do Nilo para procurar. No fim das contas, ela mudou o foco para as Ilhas Britânicas, e encontrou o local que no futuro seria Londres e o vale do rio Tâmisa, reduzindo a velocidade para cem anos de cada vez e usando o grau de desenvolvimento da cidade para determinar a era atual.

"Então... esta é a Terra? Quero dizer, esta é verdadeiramente a Terra? Não uma Terra alternativa, sutilmente perturbada por flutuações aleatórias.”

"A simulação começa com um Big Bang como é previsto pelas teorias atuais e é recalculado uma vez a cada tempo de Planck usando as leis normais da natureza e um nível de precisão ilimitado. Ele não calcula o Universo inteiro de uma vez, somente o que estamos olhando, o que acelera o processo um pouco... metaforicamente falando... mas ainda é a simulação mais precisa do universo que pode existir. A civilização – de fato, toda a História – deverá se erguer nesta Terra exatamente como ocorreu na realidade. Não existem aleatoriedades. Tudo está calculado até infinitas casas decimais."

"Isso é demais para a minha cabeça", disse Tim.

"Não, isso vai ser demais para a sua cabeça”, disse Diane, subitamente afastando a câmera e indo para o norte. “Encontrei os dias atuais, ou no máximo um ano atrás. Veja isso”. Colinas e estradas passaram pela tela. Diane estava seguindo a rota que ela normalmente usava para dirigir de Londres até o laboratório TEEO. Não tardou muito para encontrar o prédio e, descendo a colina que havia cerca, a caverna na qual o computador em si foi construído. Ou iria ser construído.

Então ela passou a avançar dia por dia.

"Aquele sou eu!”, exclamou Tim. “E ali está você e ali está o Bryan, e... caramba, mal posso acreditar que demorou todo esse tempo para ser construído.”

"Quatrocentos e dez dias, algo assim. Foi completamente dentro do prazo, não tem nem o que discutir.”

"Nem vi o tempo passar”, Tim respondeu, finalmente colocando a mochila no chão e começando a tirar seu casaco, se resignando que já tinha perdido o ônibus fazia tempo.

"OK", disse Diane. "Estamos aqui. Esta é a sala de controle onde nós estamos agora. Aquele é o computador quântico trabalhando ali no laboratório principal. Isto é uma semana atrás. Isto é ontem. Isto é algumas horas atrás e... Espere só pra ver...”

Ela apertou um botão no momento em que o relógio da parede se alinhava com o relógio dentro da sala de controle na tela. E girou a visão para baixo. Ali estavam eles.

Tim acenou para a câmera enquanto olhava para a tela. Então ele olhou para cima onde a câmera deveria estar. Havia apenas uma parede sem nada. “Eu não vejo nada olhando para nós. Isso é muito perturbador.”

"Não, isso é perfeitamente normal. Isto é a realidade. Você não pode olhar para a realidade de qualquer ângulo que queira, você precisa usar os seus olhos. Mas o que você está vendo na tela é basicamente uma solicitação à base de dados. A base de dados é gigantesca, mas mesmo assim. Você não está olhando em um espelho ou uma imagem de vídeo de você mesmo. Vocês dois são pessoas diferentes.

"Pessoas diferentes que estão reagindo exatamente da mesma forma.”

"E tendo a mesma conversa, mas capturar o som é um pouco complicado. Ainda não cheguei lá”, disse Diane.

"Então imagino que sua janela de visão também não se manifeste no universo deles."

"Ainda não a programei para fazer isso."

"...Mas ela poderia. Certo? Nós podemos manifestar coisas nesse universo? Podemos alterá-lo?". Diane concordou com a cabeça. “Legal. Nós podemos brincar de Deus. Literalmente”. Tim se levantou e tentou absorver o que acabara de ouvir. “Isso seria loucura. Você consegue imaginar viver dentro dessa máquina? Descobrir um dia que você é apenas um construto em um computador quântico? As coisas que nós poderíamos fazer, poderíamos um belo dia simplesmente reverter a gravidade, chocar uma Terra de antimatéria contra a verdadeira, e então desfazer tudo e fazer de novo e de novo... o quão antiético isso seria? Extremamente antiético, sem dúvida”. Ele pensou por um momento, então olhou por cima do ombro de Diane de propósito enquanto ela digitava. “Esse universo é exatamente como o nosso em todos os detalhes, não é?”

"Correto”, ela respondeu, ainda digitando.

"Então o que eles estão observando?”

"Um universo simulado."

"Uma simulação deles mesmos?"

"E de nós, de certo modo."

"E eles estão reagindo da mesma maneira que eu? O que significa que no segundo universo dentro desse aí, existe outro eu fazendo a mesma coisa uma terceira vez? E dentro desse existem o que, alef-zero universos quânticos idênticos, um dentro do outro? Isso é possível?”

"Poder de processamento infinito, Tim. Não foi você que projetou essa coisa?"

"Sim, de fato, mas a realidade funcional disso é completamente inesperada. Lembre-se que eu estava apenas resolvendo velhos enigmas matemáticos e pensando no nosso comunicado à imprensa na semana passada. Bem... se eu estiver correto, os universos deles só serão exatamente iguais ao nosso se nós não começarmos a interferir com a simulação, então o que aconteceria se fizéssemos isso? Cada versão de nós faria a mesma coisa, então a mesma coisa aconteceria em cada universo inferior simultaneamente. Não veríamos nada em nosso universo. Mas todos os universos inferiores iriam instantaneamente divergir do nosso exatamente da mesma maneira. E todas as nossas cópias simuladas instantaneamente concluiriam que elas são simulações, mas nós saberíamos que somos reais, certo?"

"Estou te acompanhando", disse Diane, sem parar de digitar.

Tim – as duas versões dele – andavam de um lado para o outro. "OK, acompanhe mais um pouco. Digamos que paramos de mexer no universo depois disso, e só observamos o que acontece – mas todos os carinhas simulados tentam alguma outra interferência. Desta vez, todas as simulações divergem exatamente da mesma maneira de novo, EXCETO a simulação do topo. E se eles forem espertos, e nós sabemos que somos, e eles tiverem saco para isso, o que não dá pra ter tanta certeza, os caras das simulações três em diante poderiam fazer a mesma coisa de novo e de novo e de novo até que saibam em que nível eles estão... isso é loucura.”

"Tim, olhe atrás de você”, disse Diane, pressionando uma última tecla e ativando o programa de interferência muito breve que ela havia acabado de programar, no mesmo instante em que a Diane na tela pressionava a mesma tecla, e a Diane na tela da Diane-na-tela pressionava a tecla dela e assim por diante, infinitamente.

Tim olhou para trás e quase teve um treco. Havia uma esfera negra completamente opaca de meio metro de largura próxima ao teto, tampando parcialmente o relógio. Estava absolutamente inerte. Parecia um buraco no espaço.

Diane sorriu ironicamente enquanto Tim segurava o cabelo com uma das mãos. “Somos construtos em um computador”, ele disse, sentindo-se miserável.

"Eu escrevi um artigo muito interessante sobre exatamente esse assunto, Tim, provavelmente você não o leu quando eu te dei uma cópia dele ano passado. Há uma quantidade incrivelmente longa de simuladores quânticos do universo ali dentro. Um número infinito deles, na verdade. Cada um é idêntico e cada um acredita ser a camada do topo. Havia uma probabilidade incrivelmente grande de que o nosso estaria em algum ponto dessa sequência, ao invés de no topo.”

"Isso é insano. Totalmente insano."

"Estou desligando o buraco agora."

"Você está desligando um buraco completamente diferente. Em algum lugar lá em cima, o seu eu verdadeiro está desligando o buraco verdadeiro."

"Observe as duas coisas acontecerem exatamente no mesmo instante”. Ela pressionou outra tecla, e ambos os buracos se fecharam. “Vou resumir para você. Há um ciclo de feedback acontecendo. Cada universo afeta o universo seguinte de maneira sutilmente diferente. Mas em algum ponto da sequência a coisa toda simplesmente tem que se aproximar de um ponto de estabilidade, um ponto em que cada universo se comporta exatamente como o que o simula. Como eu disse, a probabilidade é astronomicamente grande que nós estamos em um ponto muito avançado dessa sequência. Então nós estamos, muito provavelmente, quase exatamente nesse ponto de estabilidade. Tudo o que fizermos neste universo será refletido com precisão absoluta nos universos abaixo e acima. Para todos os efeitos, podemos considerar esse modelo aí dentro como sendo também o nosso universo. O que significa, em primeiro lugar, que temos que ter absoluta certeza de não fazermos nada ruim para os universos abaixo do nosso, já que a mesma coisa acontecerá conosco. Em segundo lugar, podemos fazer coisas muito boas com os carinhas no computador, dessa forma ajudando a nós mesmos.”

"Você andou pensando sobre isso?"

"Está tudo no meu artigo lamentavelmente ignorado, Tim. Você deveria ler mais."

"Saco. Este foi um dia extremamente ruim para o meu ego, Diane. O único conforto que consigo tirar disto é que em algum lugar ali em cima, bem no topo da torre quase infinita de supercomputadores quânticos, há uma versão de você que está completamente errada."

"Ela está na minoria."

Tim olhou o relógio e pegou sua bolsa novamente. “Eu preciso ir para não perder o próximo ônibus. Isso ainda estará aqui depois do fim de semana, suponho?”

"Bem, não dá para simplesmente desligá-lo."

"Por que não?” perguntou Tim, já na metade do caminho até a porta. Então parou, dando-se conta. “Ah.”

"Pois é.”

"Isso... poderia ser um problema."

"Sim."